Envelheci (crônica)

Eu sempre disse a mim mesmo que eu nunca iria envelhecer. Não fisicamente, porque isso é inevitável. Envelhecer de cabeça. Ficar ranzinza. Lembrar os velhos tempos a cada conversa com os filhos. "Ah! Na minha época as coisas eram bem melhores!"

Pois bem. Envelheci.

Continuo fazendo vista grossa para um monte de coisas. Continuo achando careta o que achava antes. Envelheci porque não soube acompanhar os novos tempos. Teimosia de velho? Talvez.

Fui um dos últimos entre os meus amigos a ter um celular. Até recentemente o meu era aquele modelo antigo, que servia só para telefonar. Uma lanterninha embutida era o máximo que eu me permitia de acessório. Hoje tenho um smart. Mas as vezes, quando saio, ainda o esqueço em casa. Acho que a Prefeitura mantém os orelhões na rua por minha causa.

Lutei contra o Twitter. Fui o lanterninha na corrida pelo WhatsApp.

Comecei a me identificar com os meus pais quando me vi reclamando das músicas de hoje em dia. Cadê o bom e velho rock'n roll? Cadê as guitarras estridentes? O mundo ficou careta como uma música do Michael Bublé?

Será que me tornei o velho que curte bolero da minha infância? Eu? Que curtia o Ozzy cuspindo sangue?

O moderno está conectado 24 horas por dia. Todos os jovens viraram geeks. Eu ainda luto um pouco contra isso. 

Hoje me vi em uma situação ridícula. 

Se eu deixar, meus filhos passam horas conectados. E quando digo horas, quero dizer dias inteiros. São games no PS4, iPad, iPod, iPhone, Android, Smarts, Notebooks e o escambau. O armário cheio de jogos de tabuleiro, artigos esportivos, brinquedos maneiros, A bola pedindo pra ser chutada. A sunga seca dentro da gaveta. A guitarra encostada.

Almoçam de olho em telinhas. 

Chega de games! Vai brincar! Vai jogar bola! Vai dar um mergulho na praia! Vai andar de bike! Vai escutar música aos berros! Vai ler uma HQ ou um livro de aventuras! Vai desenhar! Vai montar um robô! Vai fazer experiências de alquimia! E se não quiser essa porrada de brinquedos que tem no armário, então separe para dar para quem não tem nada!

Mandar brincar virou castigo.

Envelheci. Não porque fiquei velho. Mas porque o mundo mudou e eu não soube acompanhar. Pior. Carrego a teimosia dos meus pais e agora quem não quer acompanhar sou eu.

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