segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Espaço LIJ - Outubro de 2012

Outubro chegou e o dia das crianças já está batendo na porta. Quer uma dica? Eu adorava ganhar livros da série Vaga-lume ou das coleções da Ediouro. Ficava horas lendo os romances juvenis de detetives da época. Tenho muitos guardados até hoje e foi com uma imensa alegria que vi meu filho mergulhar de cabeça em O Gênio do Crime, de João Carlos Marinho. É bom poder compartilhar essas histórias que tanto marcaram a minha geração.

Além do João Carlos Marinho e sua Turma do Gordo, havia ainda as séries dos Irmãos Encrenca da Stella Carr, Léo, Gino e Ângela, o trio de investigadores de Marcos Rey, a Inspetora e sua Patota da Coruja de Papelão, de Ganymédes José, o Clube do Falcão Dourado, de Gladys Stumpf González, Os Seis e A Turma do Posto Quatro, estas duas últimas escritas por Hélio do Soveral.

O artigo do mês é dedicado a esse espetacular e pouco conhecido criador dos jovens detetives de Copacabana.

Para dar mais brilho ao nosso espaço, trago como convidados os ilustres Leo Cunha e Sandro Dinarte.


ILUSTRA com Sandro Dinarte

Taí um cara talentoso. Quem viu o ogro que ele ilustrou no estande da AEILIJ no último Salão FNLIJ do Livro, sabe o quanto ele é bom. E além de tudo é super gente fina.

A ilustração abaixo é uma livre interpretação do livro O Senhor dos Anéis - O Retorno do Rei - capitulo VI - A batalha dos Campos de Pelennor - Quando Éowyn destrói o Rei Bruxo senhor dos Nazgûl.


Sandro Dinarte nasceu em 1970 em Campina Grande, PB. Mora e trabalha no Rio de Janeiro desde menino. Ao longo dos anos se aperfeiçoou em pintura, escultura e design gráfico. Iniciou a sua carreira na propaganda, mais tarde, como free-lancer, ilustrou dezenas de livros, quadrinhos e charges de humor. Hoje, ainda atua como ilustrador, mas divide o seu tempo como editor da Adler (adler-books.com.br) e do selo Ygarapé (ygarape-books.com) onde publica livros de diversos autores.

Para ilustrar um livro, Sandro lê o texto (várias vezes se preciso for) e passa alguns dias rabiscando ideias no papel. Tudo muito solto, sem compromisso. Quando sente que o resultado se afina com o clima do texto, passa a trabalhar com mais objetividade e assim nascem os desenhos definitivos dos personagens, cenários, cores, luz e sombra. O estilo da ilustração depende muito do texto, pode ser em aquarela ou em técnica mista (isso inclui o computador). Vale tudo para se chegar a um resultado adequado.



HÉLIO DO SOVERAL

“Luiz de Santiago (Lula) – chefe da patota e autor do livro. Tem 14 anos de idade e nasceu em Copacabana. Filho de imigrantes portugueses, o pai dele é gerente de uma confeitaria. É um garoto moreno, nem magro nem gordo, de olhos verdes, cabelos pretos e topete. Acaba de passar para a 8ª série do 1º grau e joga como ponta-direita do Atlântica Futebol Clube, um time de futebol de praia com escudo, camisa e tudo.
Maria Aparecida de Carvalho (Cidinha) – namorada de Lula. Tem 12 anos de idade...”
Segue-se a apresentação de Príncipe, Carlão e Pavio Apagado.

Quem já leu a série juvenil A Turma do Posto Quatro, criada por Hélio do Soveral, entende o sucesso que foi essa coleção de 35 livros lançada pela Ediouro no começo da década de setenta. Hélio escrevia em primeira pessoa e assinava sob o pseudônimo de seu personagem principal. As histórias envolviam crimes que eram solucionados pela turma de Copacabana. Há muito humor e aventura em seus textos, além de uma boa explicação didática de cada lugar visitado pelos detetives. Foi ali que conheci tribos indígenas, os pampas gaúchos, costumes locais de vários lugares do Brasil, montagem de jangadas, pedras preciosas, como funciona um mimeógrafo e muito mais.

Os livros da Turma do Posto Quatro ainda podem ser encontrados em sebos pelo Brasil afora, ou no site www.estantevirtual.com.br a preços bem camaradas. Meu favorito é a Operação Torre de Babel, segundo livro da série, onde eles tem que resolver uma assassinato ocorrido no próprio edifício aonde funciona a sede do grupo. Lembre-se, no entanto, que a linguagem é da época. Desarme-se para ler. Vale a pena.

Hélio do Soveral também assina outras coleções juvenis, entre elas:
Os Seis, 19 livros protagonizados por Zé Luís, Dudu, Marilene, a doutora sabe-tudo Anete, Beto-Ferrugem e o cãozinho Saci, que juntos formam a Sociedade Secreta dos Seis (SS6) – esta sob o pseudônimo de Irani de Castro;
Missão Perigosa, 13 livros que que narravam as aventuras da dupla Júlio César e Jussara, jovens repórteres que fazem a cobertura jornalística de diversos casos pelo mundo à fora – sob o pseudônimo de Yago Avenir;
Bira e Calunga; Chereta; e Zezinho Sherlock.

Muita coisa, não é? No total, entre juvenis e adultos, foram cerca de 230 livros publicados. Mas espera aí! 230? E você nunca ouviu falar em Hélio do Soveral? Eita!

O escritor, jornalista e roteirista Dagomir Marquezi considera Soveral o maior escritor pop do Brasil e nunca aceitou o fato de seu ídolo não ser reconhecido. Para corrigir essa injustiça, criou para ele o blog memorialsoveral.blogspot.com.br.
Em seu próprio site, ele afirma: “Cada escritor tem seu herói. O meu é Helio do Soveral. Ele nasceu em Portugal em 1918 mas logo se tornou um cidadão emérito de Copacabana. Nunca foi reconhecido pelo que era: um gênio das letras. Escreveu roteiros de cinema, radionovelas, inventou a literatura policial brasileira, escreveu romances populares e reinventou-se como autor de livros juvenis. Conheci Soveral como autor da sensacional série de espionagem KO Durban.”

Bem estou com Dagomir. Soveral é um dos meus ídolos literários também. É uma pena que seu nome não seja reconhecido como merece. Me lembro de um papo com o Maurício Veneza, assim que entrei para a AEILIJ, quando falamos horas sobre o autor de Missão Perigosa. Quem estava por perto não tinha a mínima ideia de quem era o assunto de nossa conversa. Triste isso.

Soveral morou em Copacabana por cerca 60 anos. Passou por dificuldades e, após a morte da mulher, mudou-se para Brasília para ficar perto de sua filha Anabelí. Uma de suas obsessões era a tradução da obra poética completa de Edgar Allan Poe. Já na capital do país, teve seu sonho realizado ao assinar com uma editora a publicação de seu livro com os poemas do autor de O Corvo. Quando voltava para casa, feliz da vida, foi atropelado por uma moto e morreu aos 82 anos de idade.

Hélio do Soveral publicou sua primeira história policial aos 27 anos de idade no jornal A Nação. Ganhou prêmios literários e escreveu várias peças teatrais e novelas para as rádios Tupy, São Paulo e Nacional. Foi redator de programas de Haroldo de Andrade, no rádio e na televisão, e autor de mais de 1000 scripts do Teatro de Mistério (Alguns episódios podem ser ouvidos aqui: http://www.velhosamigos.com.br/CantinhoSaudade/saudade4.html).

Hélio trabalhou com jornalismo, foi dele a última entrevista de Noel Rosa, já em seu leito de morte, e roteirizou histórias de terror em quadrinhos que foram publicadas em revistas como a Spektro e a Pesadelo.

E isso tudo que eu contei é só um pedacinho do que esse homem já fez. Fala sério! Tem certeza de que nunca ouviu falar desse cara?


ENTREVISTA FOGUETE com Leo Cunha


Três livros seus para quem não te conhece?
Nestes 20 anos de carreira, eu transitei por vários gêneros: poesia, prosa, crônica, teatro. Também tenho livros infantis, juvenis e até uma coisa ou outra para adultos. Dá pra imaginar como é difícil escolher só 3 entre os mais de 50 livros. Mas vamos lá:
Poesia – Clave de Lua (Paulinas, 2001).
É um livro de poemas sobre o universo da música (instrumentos, ritmos, gêneros, músicos) com ilustrações lindas do Eliardo França. Cada ilustração, na verdade, era uma tela enorme, que o Eliardo chegou a expor em várias cidades. Acredito que o livro sintetiza meu trabalho com a poesia, mesclando poemas mais líricos a outros bem brincalhões. Para completar, 15 dos poemas do livro foram musicados por Renato Lemos, Luiz Macedo e André Abujamra, e o CD acompanha o livro.
Sou alucinado pela música e uma das minhas grandes frustrações na vida é não tocar nenhum instrumento. Este livro-CD compensa um pouco a frustração.
Prosa – Pela estrada afora (Atual, 1993)
Um adolescente viaja para visitar a avó doente. Ao seu lado, apenas o motorista do carro, seu tio Zebe, muito caladão. Nas curvas e no silêncio da longa estrada, o garoto aproveita para refletir sobre sua relação com a avó, com os pais, com o amor, com a morte e com as palavras. O livro é bem divertido, mas tem um lado mais delicado e introspectivo. Pela estrada afora  ganhou o Concurso Nacional de Histórias Infantis do Paraná e me valeu os prêmios de Autor Revelação de Literatura Infantojuvenil, tanto no Jabuti quanto na FNLIJ.
Crônica – Ninguém me entende nessa casa! (FTD, 2011)
Este é praticamente um livro de memórias, disfarçado. Ao contrário de todos os meus outros livros, a inspiração aqui foi totalmente real: casos dos meus pais, avós, filhos, esposa, amigos. Mesmo os mais inusitados – como o dia em que meu pai cismou que estava criando um dinossauro no jardim – são verdadeiros. Também aproveito para homenagear alguns escritores que tive a sorte de conhecer e ficar amigo, como Orígenes Lessa e Sylvia Orthof. É um livro que eu relutei muito em escrever, pensando: será que alguém vai se interessar pela minha vida? Mas, para minha surpresa, tem feito um sucesso muito grande, principalmente com o público adolescente.

Há gostos diversos em uma turma de 30 alunos. Alguns podem preferir histórias de aventuras e outros romances ou textos com humor. Como um professor deve escolher o livro a ser lido por todos?
No mundo (ou na escola) ideal, os alunos de uma turma deveriam ler livros diferentes, cada um optando por um tema, gênero ou autor preferido. Por outro lado, acredito que, em alguns momentos do ano letivo, é importante, sim, a leitura compartilhada de um mesmo livro, possibilitando reflexões, debates e outras atividades em conjunto. A escolha dessas obras compartilhadas é, certamente, um dos maiores desafios do professor. Passa muito por sua sensibilidade pessoal, por seu gosto pessoal, e também por um processo de tentativa e erro. Se ele escolheu, criteriosamente, um determinado livro, mas não “funcionou” com a turma, na próxima ele tenta outro. Como dizem os americanos, “ninguém disse que ia ser fácil”.

Qual a importância de um bom título? Cite alguns que você não gosta.
Sou fascinado por títulos, capas, cartazes, todos estes elementos paratextuais  Sempre discuto e trabalho isso com meus alunos do curso de jornalismo, nas disciplinas de “Fundamentos de Cinema” e “Jornalismo Cultural”. Também já escrevi algumas coisas sobre isso.
Gosto de títulos que despertam a curiosidade, a vontade de descobrir o que tem ali. É o caso dos meus títulos “Manual de desculpas esfarrapadas”, “As pilhas fracas do tempo”, “O menino que não mascava chiclê”, “Piolho na Rapunzel”...
Também curto os títulos que brincam com expressões já conhecidas. Foi assim que criei: “Conversa pra boy dormir”, “Em boca fechada não entra estrela”, “Clave de lua”, “Pela estrada afora”, “Ninguém me entende nessa casa!”
E também títulos que brincam com o próprio signo e (re)inventam palavras, como fiz em “Profissonhos”, “Cantigamente”, “Contos De Grin Golados”, “XXII!! – 22 brincadeiras de linhas e letras”.
Por outro lado, algumas vezes acho que errei na mão e criei títulos enigmáticos e pouco atraentes, como “Quase tudo na Arca de Noé”, ou “Sonho passado a limpo”.

"Nossos livros não vivem em uma livraria. Vivem em um orfanato". Por quê?
Isso foi uma “frase de efeito” que eu bolei, um tempo atrás. Uma brincadeira, mas, como toda brincadeira, tem um fundo bem verdadeiro. Escrevi isso para problematizar, e ironizar, o fato de que o grande sonho do escritor de literatura infantil e juvenil é ser "adotado".  Quando um livro é adotado por uma escola, por uma instituição, por um programa de governo, é uma garantia (ou pelo menos uma indicação) de que ele vai realmente circular, ser muito vendido e muito lido.


Site do escritor: http://www.leocunha.jex.com.br   

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Este Espaço LIJ foi publicado em seção própria no jornal digital Sobrecapa Literal nº 20Acesse www.sobrecapaliteral.com.br para fazer o download da publicação inteira em formato tabloide.

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